Puro preconceito

Nossas escolhas são norteadas por simpatias, por um senso de justiça, por empatia com as pessoas confinadas. Já defendi jogadores ruins, extremamente defeituosos, pura e simplesmente pelo senso de justiça, pelos ataques virulentos nas redes sociais. Já defendi jogadores cheios de virtudes, mas a quem a casa perseguiu sem dó nem piedade por ter um padrão diferente do seu. Porque jogadores de BBB, com raríssimas exceções, buscam dentro do confinamento o seu igual para se aliar. Tivemos algumas jogadoras brilhantes que souberam acolher o excluído e trazê-lo para o jogo. O jogador medíocre em geral olha apenas o próprio umbigo, faz escolhas erradas perante o público, mas sempre vai se consolar com uma possível superioridade intelectual apontando a burrice de quem vota. Assistir BBB foge pouco desse cenário.

Dito isso, Gleici enfrenta seu quarto paredão esta semana. A menina tímida do Acre, que num trabalho de formiguinha foi conquistando boa parte do público, já passou por poucas e boas dentro do jogo. Gleici foi claramente excluída? Não. Mas foi muitas vezes deixada de lado. Mesmo Paula, que sempre teve um carinho especial pela Gleici, lá nos primórdios do BBB abraçou uma aliança power rangers com Jaque e Jessica prometendo amor eterno e sonhos de estarem juntas na Final, esquecendo um pouco da Gleici. Onde estava Gleici nesse momento? Tentando achar seu espaço dentro de um grupo com personalidades fortes, vaidades exacerbadas e certezas de saber o gosto do público para ser um vencedor.

Gleici achou carinho na Paula, na Mara, na Clara e no Mahmoud. E, mais tarde, no Wagner. Ponto. Mais ninguém estava interessado na menina do acre, afinal de contas, ela não tinha cacife para disputar com eles. Ana Paula, Patrícia e Kaysar nos divertiam com suas palhaçadas assim que nos foram apresentados. Depois Diego se juntou ao grupo e o trio Mandinga passou 3 semanas deitado em berço esplêndido detonando meia casa, xingando as meninas, articulando planos mirabolantes para não ir ao paredão. Enquanto isso, Jessica vivia pendurada no Lucas e o trio formado por Wagner, Viegas e Caruso estava fechado em sua amizade e combinação de votos. Gleici acabou se aproximando da Clara que abraçou ela e Mahmoud e os três formaram um trio divertido e afetivo no jogo.

A primeira vez que Gleici enfrentou um paredão foi por indicação direta do Lucas. Foi tão fora da casinha a indicação do Lucas que até as redes sociais não entenderam qual o sentido de jogar Gleici no paredão. Lucas argumentou para seu grupo, e não para Gleici, que achava que ela era uma jogadora fraca e facilmente eliminável. Achismo dele norteado por puro preconceito. Na cabeça do Lucas os preferidos do público eram ele, Breno, Paula, Jaque e Jessica, os branquinhos do shopping como eram chamados pela Nayara. Depois vieram mais três idas ao paredão, duas com interferência direta do Diego e o paredão desta semana quando foi por ele indicada. No entanto, mesmo enquanto outros jogadores eram jogados no paredão o nome da Gleici nunca foi esquecido, jamais saiu da alça de mira da turma da combinação que se juntou para se livrar do paredão.

Então, reduzir o incomodo da Gleici com os votos levados a mero mimimi de quem não quer ser votado é no mínimo estúpido. Da mesma maneira que dizer que ela não interage na casa é um sofisma. Afinal de contas, quando Diego, Patrícia e Ana Paula tiveram um real interesse na amizade da Gleici? E Lucas e Jessica? E Viegas e Caruso? Nunca. Mesmo quando Gleici interagia com Viegas e Caruso no quarto Tropical, eles jamais deixaram de criticá-la ou menosprezá-la como pessoa. Até mesmo Breno por quem Gleici tinha apreço, não titubeou em colocá-la no paredão junto com o grupão. Nayara é negra, dizia defender os negros e nunca incluiu Gleici em sua defesa.

Hoje temos dez pessoas na casa, grupos definidos, antipatias estabelecidas, e mesmo assim existe quem, do público, ache que Gleici deveria ir lamber o saco de quem claramente a despreza. Diego, Viegas e Jessica estão há três dias detonando incansavelmente a Gleici. Rebaixando os valores da Gleici, Jessica chegou a dizer que ela não tem berço. Vocês acham que só a gente que está assistindo que está percebendo? Ou que Gleici é uma idiota e não entende o que eles estão fazendo?

O mais espantoso e revelador de tudo é a postura soberba do Diego. Que julga em função de uma pseudo intelectualidade ser superior a todos na casa. O olhar do paraense para Gleici é determinado por sua educação. Gleici para Diego não passa de uma cunhã. Cunhã são meninas ribeirinhas que são entregues para serem educadas ajudando como babás nas famílias de classe média e ricas da região norte. E isso está sendo dito porque Roberto é paraense e teve uma cunhã que cuidava dele, chamava-se Maria e quando atingiu os dezessete anos foi viver a vida dela.

Portanto, desde que começou o jogo Diego tem esse preconceito contra Gleici, esse olhar de superioridade achando que ele pode criticá-la, desprezá-la, diminuí-la e ela tem que achar bonito por ser de uma classe inferior. O exemplo disso é quando ele diz que ela deveria receber a placa de hipócrita e quando ele deu no jogo à Gleici a placa de sonsa. Diego foi conversar depois com ela para se justificar e a partir deste momento o assunto estava resolvido para ele, afinal de contas, como ele diz, a palavra só pode ser dirigida às pessoas que ele considera de alto nível. E como esse assunto estava resolvido para Diego, para Gleici é obrigatório que esteja resolvido também, ela não pode continuar achando ruim, colocá-lo no paredão, já que ele fez a enorme concessão de conversar com ela por alguns minutos.

Assim como Diego, Jessica tem o mesmo olhar. Já cansou de falar que não ajudar na casa deve ser da cultura da Gleici, que Gleici não tem berço. Jessica, aquela que hoje faz parte do grupinho que não tira o nome de Gleici da boca, há poucas semanas debochava da menina, fazia fofocas sobre ela no quarto submarino, era extremamente grossa com Gleici e para completar o escárnio, ainda se deu ao desplante de votar na Gleici usando uma roupa que tinha ganho da acreana. Mas, para alguns, Gleici colocar a princesa do shopping no paredão é simplesmente vingança. Não é não. É proteção, Jessica só não votou na Gleici neste paredão porque Diego fez uma indicação direta.

Enfim, este é o quadro do paredão desta semana. O fato do Leifert ter dito que Diego e Gleici não são plantas, não quer dizer que ambos tenham sido bons jogadores. Diego jogou mal, subestimou o público, fez jogo interno pequeno e tão frágil que perdeu o domínio muito cedo do jogo. Na semana passada quando Gleici foi para o Quarto Secreto quase todo Twitter queria que ela voltasse e indicasse a Patrícia em grande estilo. Gleici cumpriu seu papel. Hoje diante do desespero do Diego por estar no paredão com ela e para desqualificar Gleici ele classifica esse comportamento da Gleici como soberba e parte do Twitter está comprando esse discurso. Uns pela conveniência da defesa de um suposto jogo, outros por medo de uma possível força da Gleici na disputa pelo prêmio e outro tanto por mero preconceito que permeia as redes sociais neste momento tão soturno do Brasil.

Numa casa onde se debate pouco os afazeres domésticos, onde quem enfrenta mais a cozinha são Wagner, Paula e Clara, onde lavar louças é tarefa enfrentada por poucos, o próprio Diego pouco colabora, apenas Gleici é chamada de preguiçosa, afinal de contas, sob o olhar escravocrata que ainda domina o Brasil, biotipos como a Gleici que não encarem os afazeres domésticos são meros índios e escravos preguiçosos na Casa Grande desse show.

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