O ruído do silêncio

Uma das coisas mais difíceis em reality talvez seja separar fantasia da realidade. Existe no jogo quem de fato são os jogadores, quem eles acham que estão mostrando e como nós os percebemos aqui fora. Leve para dentro do jogo alguém com uma realidade totalmente desconhecida, uma história de vida não contada, uma tragédia anunciada e teremos um prato cheio para toda sorte de fantasias e questionamentos. O problema é que o público escolhe que realidade ele vai abraçar e qual ele vai desmerecer, porque histórias de vida para contar, simples ou não, todos nós temos.

Aqui em casa a gente costuma falar que o silêncio do Kaysar em relação a sua história de vida é o elemento mais potente em seu jogo. É um silêncio que paira sobre sua permanência no Big Brother. Silêncio esse que permitiu a torcida montar aqui fora toda uma história de privações e dificuldades que o Kaysar sequer levou para o jogo. O que nós sabemos é que Kaysar saiu da Síria quando começaram os conflitos em seu país e que vem vagando pelo mundo nesses últimos 7 anos. Mas como Kaysar saiu da Síria? De carro? De ônibus? De avião? Ele foi para a Ucrânia tentar a vida, mas exatamente o que ele fazia lá? Porque Kaysar não conta, não conta nada da família, não conta nada das experiências dele em outros países, não fala da infância, da juventude, de como é a irmã, dos amigos que lá deixou e que fez na Europa e no Brasil, como é o pai e a mãe. Nada, temos um perfeito papel em branco. E esse papel em branco abre margem a toda sorte de especulação.

O problema é que como a Síria é um país em guerra, criou-se uma espécie de tabu em torno desses questionamentos. Como se ao questionar Kaysar a gente estivesse questionando a zona de conflito no Oriente Médio. Zona essa de conflito que a gente sequer compreende muito bem. Assim, como não compreendemos muito bem as realidades duras em nosso país. Questionar o nível de veracidade da história e sofrimento do Kaysar é uma heresia, mas questionar a história de vida de uma Gleici, por exemplo, é apenas colocá-la em seu devido lugar. Quando na verdade, ambos têm histórias tristes de vida. Pelo que nós pesquisamos existe em Aleppo a zona leste da cidade extremamente castigada e a zona oeste mais preservada dos efeitos da guerra. Se alguém tiver alguma outra informação, traga para nossa discussão.

Assim como na realidade do Brasil, também existem situações equivalentes em termos de sofrimento, violência, falta de saneamento básico, desemprego e falta de segurança pública. Se fizermos uma raio-X de uma favela do Alemão, por exemplo, você estará apresentando o pior do Rio de Janeiro. Se apresentarmos uma foto de Ipanema, estaremos mostrando o melhor. Com tudo isso não queremos dizer que os pais do Kaysar não estão passando necessidade, mas também não sabemos ainda a real situação em que eles se encontram. Isso é importante para o jogo? Não, na verdade não. Mas, como todo o marketing do Kaysar está sendo feito em cima da situação familiar, acaba gerando sim uma polêmica em torno desse assunto.

Kaysar precisa contar a história dele na casa. Não acho que seria vitimismo, seria um enriquecimento para nós que estamos assistindo. Porque compreender situações tão distantes só tornam mais ricas a nossa percepção da vida. A história do Kaysar pode passar por ele ter nascido em berço de ouros, ter uma família com muitas posses, estar bem de vida, nada disso vai alterar o julgamento do jogador que está dentro do Big Brother. Portanto não interessa a vida do jogador aqui fora, mas também não podemos transformar essa história de vida na justificativa para darmos o prêmio ao Kaysar. Talvez a Rede Globo pudesse colocar seu setor de jornalismo para trabalhar e apurar essa história e limpar de vez esse caminho. Porque se a história dos pais do Kaysar for muito triste de verdade isso também não vai alterar o resultado do jogo já que essa história de vida intuída está pesando atualmente neste resultado.

Kaysar é uma boa pessoa? Parece que sim. No jogo ele é amigo, companheiro, divertido, preocupado com as pessoas. Mas também é um cara que não se posiciona, que conversa com uma garrafa e que escuta toda sorte de bobagens por parte de Diego e Patricia e continua os escolhendo como melhores amigos. Ou seja, tem pontos bons e pontos ruins. Assim como muitos outros jogadores que disputam esse prêmio. Neste momento o silêncio de Kaysar e o silêncio da Rede Globo gritam em nossos ouvidos: precisamos saber dessa história!

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