
20.05.13
Dia 25 de abril… Se fosse viva, Ella Fitzgerald estaria hoje completando 96 anos. Hoje também Portugal comemora os 39 anos da Revolução dos Cravos quando se restabeleceu o caminho para a democracia portuguesa. Os dois acontecimentos têm muito a ver com minha vida. Ella foi a primeira cantora de jazz por quem eu me apaixonei aos 14 anos. Na verdade, ela é responsável por minha paixão pelas cantoras de jazz, pois mais do que apaixonada pelo gênero musical eu sou louca pelas jazz singers. Para vocês entenderem o quanto eu tive que me reinventar para ficar cantarolando Louca, louquinha durante o BBB13, tudo por conta de uma esfuziante e adorável Fernanda Keulla e um tímido, mas não menos adorável, André Martinelli presentes no jogo.
Atrás da Ella vieram a Billie Holiday, Dinah Washington, Nina Simone e Natalie Cole. Tudo isso aliado à minha descoberta da Janis Joplin, todos artistas fora do circuito comercial dos jovens de minha época. Imaginem o espanto que causei ao chegar nos EUA, num sul ainda em conflito com racismo que residia na cabeça das gerações mais velhas, para viver com uma família branca à cata de discos de artistas negras de jazz e do ícone de uma geração que nenhum americano de classe média lembrava ou compreendia, aquela forjada no festival de Woodstock. Enquanto meus irmãos americanos se embalavam ao som de Peter Frampton, eu os atormentava com os agudos angustiados da Janis na música Cry Baby.
Fui parte desse mundo e de outro não tão perfeito quanto o da minha descoberta musical, os anos finais da ditadura e início do processo de democratização do Brasil na década de 80. Lembro-me de quando, ainda menina, mostraram um jovem na televisão, apresentado como terrorista, eu, muito pequena, congelada de medo de que aquele homem mau invadisse minha casa e destruísse meu mundo. Reportagens sobre assaltos a Bancos que eu não compreendia, onde enxergava apenas o medo que eu, muito criança, via refletido nos olhos de meu pai e minha mãe.
Anos mais tarde eu estava do outro lado, fazendo meus pais perderem noites de sono, ainda aterrorizada, mas participando da primeira reunião para reestruturação da União Nacional dos Estudantes que foi realizada na PUC, onde escondíamos nossos rostos na hora da imprensa fotografar a manifestação por medo de represálias dos órgãos de repressão. Tudo isso é hoje uma realidade incompreensível para os tantos jovens que me leem, que não têm ideia do que seja ter medo de expressar sua opinião sobre o mundo, ter letras do Chico Buarque censuradas ou se deleitar quando o Chico driblava a censura e conseguia lançar no mercado uma música cheia de mensagens subliminares. Vocês sabiam que o Chico já registrou uma música sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide? Pois é, essa realidade brasileira que parece tão distante, mas que ocorreu ontem se levarmos em conta os mais de quinhentos anos de existência do Brasil.
Me lembro também da Revolução dos Cravos, dos soldados portugueses distribuindo flores pelas ruas e da lufada de esperança que representou o 25 de abril de Portugal para um Brasil que ainda via morrer nos porões da tortura seus jovens filhos rebeldes. Olho para o mundo de hoje, cuja insegurança tem outro teor, onde o medo da violência é muito fruto das soluções políticas e econômicas buscadas por esse país que soube enfrentar o desafio de se tornar democrático, mas que engatinha ainda para resolver a desigualdade social, a péssima distribuição de renda, o sufocamento da classe média, a corrupção dos políticos, a proliferação das drogas e tantos outros problemas que vivemos em nosso dia a dia.
Porém, mais que tudo, esse país que quer ser democrático esbarra no despreparo de uma geração inteira que não conhece sua história, que lê poucos livros, que tem preguiça de textos longos, que se esforça num sistema educacional falho e elitista, que não sabe mais escrever, que se desacostumou a pensar. Mas que ao mesmo tempo tem a sua disposição instrumentos que eu jamais poderia sonhar aos meus 14 anos. Que encurta distâncias globais ao toque de um teclado, que coloca cara a cara, em tempo real, duas pessoas que moram a milhares de quilômetros uma da outra. Um admirável mundo novo, que assusta ao mesmo tempo que me fascina.















